Regresso ao Turismo - uma crónica do CEO da Proactivetur

João Ministro, CEO da Proactivetur:

“Já fomos confrontados, em algum momento, com este termo, seu significado e formas de aplicação. Mas ainda estamos longe, enquanto consumidores e, especialmente, enquanto promotores, da integração das dimensões de sustentabilidade na actividade turística”

“Regresso ao Turismo, tema tão especial no Algarve e frequentemente alvo de variadas reflexões no que ao seu futuro concerne. Abordo, novamente, a vertente da sustentabilidade que, como sabemos – ou deveríamos saber – é factor decisivo no garante desta actividade. O termo entrou definitivamente no léxico da actividade turística, muitas vezes sem a verdadeira assimilação do seu significado e urgência da sua integração. Começam, no entanto, a surgir bons exemplos que procuram interiorizar este conceito, tão diverso e importante, nas múltiplas dimensões da operação turística. Há, porém, muito ainda a fazer e urgentemente. Vamos a algumas notas sobre isto.

1. Já fomos confrontados, em algum momento, com este termo, seu significado e formas de aplicação. Mas ainda estamos longe, enquanto consumidores e, especialmente, enquanto promotores, da integração das dimensões de sustentabilidade na actividade turística. Prova disso é um estudo recente desenvolvido pelo professor e investigador Xavier Font e outros colegas, sobre a percepção dos clientes face ao desempenho de sustentabilidade em alojamentos, analisada através das «eco-avaliações» registadas nas plataformas Booking.com e Expedia. As conclusões mostram que a grande maioria das avaliações dos clientes resultam da sua satisfação geral pela estadia e não tanto pelas práticas de sustentabilidade dos espaços. Ou seja, pouco se está a conseguir ao nível da percepção dos clientes para essa dimensão. O estudo parece mostrar que as certificações e os «self-reports», pouco efeito exercem nessa assunção. Significa isto que há mudanças a fazer na forma como se aplica, integra e comunica a sustentabilidade nos alojamentos. Não basta emoldurar os sêlos e logótipos das certificações em cima de uma qualquer recepção.

2. Começam a ser regulares as notícias vindas a público sobre o excesso de turismo e os impactos do chamado «overtourism» - ou turismo de massas - nos destinos. Mesmo que pontualmente e em sítios específicos. Também a relação do turismo com a qualidade de vida das comunidades locais tem sido alvo de maior atenção. O recente estudo produzido pela Fundação Manuel dos Santos, no âmbito do «Barómetro do Turismo» , revela algumas das percepções menos positivas dos habitantes nos locais mais procurados e intensamente utilizados pelos turistas. Independentemente das causas, origens e natureza da actividade, há algo que é consensual: é preciso gestão. Esta pode passar por medidas de regulação das actividades, impondo mesmo limitações ou reduções, ou ainda por estratégias de dispersão. E isto, sejamos claros, obriga a planeamento municipal e até supra-municipal. Será que existe?

3. Recentemente tive oportunidade de participar numa conferência internacional, promovida pela Universidade do Algarve, em torno do Desporto e Turismo, onde se falou de diversos temas relevantes nessa relação. A minha intervenção focou-se, naturalmente, no que ao turismo de natureza e actividades ao ar livre diz respeito, mas com uma incidência na qualificação, tema que tenho igualmente partilhado noutros fóruns. É fundamental investir cada vez mais na qualificação, ao invés de continuar a criar novos produtos, novas infra-estruturas ou até mais na promoção. Não significa isto que devemos simplesmente parar estas acções. Não. Apenas que o foco deve orientar-se cada vez mais para a componente da qualidade: mais e melhor capacitação dos intervenientes na actividade turística, melhor gestão territorial, melhores infra-estruturas – não novas, mas melhorar as existentes –, melhor articulação e cooperação entre agentes, melhor optimização dos recursos locais, mais e melhor aposta na sustentabilidade, entre outras.

4. Ainda relacionado com o ponto anterior, importa efectivamente monitorizar a actividade turística na região. A este propósito, chamo a atenção para o que se mede no Observatório para o Turismo Sustentável no Algarve e por comparação, o que o mede o Observatório do Turismo Sustentável do Turismo Centro. Enquanto o «nosso» mantém uma incidência nos tradicionais dados de chegadas e dormidas, bem como uma abordagem muito académica, o observatório do Centro tem medições do Turismo Activo, com os dados brutos das caminhadas e do cicloturismo por percursos ou localidades. Claramente, formas diferentes de encarar esta tão importante missão de conhecer o que se passa no território.

Um outro aspecto cada vez mais relevante na discussão em torno da indústria do turismo, prende-se com a necessidade de mais e melhor envolvimento das comunidades locais nos processos de decisão e gestão da actividade. Mas sobre isto falarei noutro momento”.

 Crónica de João Ministro, CEO da Proactivetur, publicada na Revista Algarve Informativo.

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